Ricardo Soares
Diretor-geral da Go.Charge


O Governo anunciou um novo aviso do Fundo Ambiental para 2026, com 20 milhões de euros para apoiar a compra de veículos elétricos. É uma boa notícia e merece ser dita assim, sem reservas. Num momento em que a procura não desacelera e a oferta utilitária finalmente chega ao mercado, o sinal de continuidade do apoio público é importante. Mas é também aqui que começa a conversa difícil: o apoio à compra do veículo, sozinho, não constrói a transição energética. Falta o resto.

Comecemos pelos carregadores domésticos. O aviso mantém o apoio à instalação de pontos de carregamento em condomínios, com 80% do valor até 800 euros por lugar de estacionamento, mais 80% da instalação elétrica até mil euros. É um modelo correto, mas circunscrito a quem vive num apartamento. Ficam de fora as moradias unifamiliares, que concentram uma fatia significativa do parque habitacional português, sobretudo fora das áreas metropolitanas. Quem mora numa moradia paga o carregador do próprio bolso enquanto vê o vizinho do apartamento ao lado ser apoiado pelo Estado. Não há justificação técnica nem ambiental para esta assimetria. A dotação deve ser reforçada e o âmbito alargado a todos.

O segundo bloco em falta é mais estrutural: painéis solares e baterias de armazenamento. Carregar um elétrico em casa com energia da rede em horário de ponta é melhor do que abastecer combustível fóssil, mas fica longe do potencial real. A combinação carregador, fotovoltaico e bateria muda a equação: o veículo é carregado com energia produzida no telhado e armazenada localmente. O ganho é triplo: menos pressão na rede pública, mais soberania energética, conta de eletricidade mais previsível. E, ao contrário das megacentrais solares, não consome um metro quadrado de solo virgem.

Acontece que estes três apoios, veículo, carregador e autoconsumo, vivem em silos administrativos diferentes, com calendários, formulários e regras desencontradas. Quem quer fazer a transição completa tem de gerir três candidaturas em paralelo, com o risco real de uma ficar para trás. Faria sentido um programa integrado, onde se pudessem concentrar vários apoios numa única candidatura, facilitando a vida de todos.

Os 20 milhões para os elétricos são bem-vindos. Mas se queremos mesmo democratizar a transição e não apenas subsidiar a sua face mais visível, é nas infraestruturas domésticas que o próximo passo tem de ser dado. O telhado, a parede da garagem e a bateria no canto da casa são, hoje, tão estratégicos como o posto ultrarrápido na autoestrada. Essa é a peça que falta!

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Artigo originalmente publicado no Jornal de Notícias a 29 de maio de 2026