Ricardo Soares
Diretor-geral da Go.Charge
Em agosto, mais de um em cada três automóveis novos vendidos em Portugal foi elétrico. A quota ultrapassou os 36%, um crescimento de 65% face ao mesmo mês do ano passado, e no acumulado do ano já praticamente um em cada quatro veículos novos é 100% elétrico. Não é um facto isolado ou uma obra do acaso. É a confirmação de uma tendência que temos vindo a acompanhar há meses, e que ganha velocidade.
Há uma leitura destes números que costuma ficar de fora das notícias sobre as estatísticas de matrículas: a da soberania energética. Portugal, como a generalidade dos países europeus, não produz o petróleo que consome. Cada litro de gasóleo, gasolina, GPL ou fuelóleo é dinheiro que sai do país para pagar importações sujeitas a mercados voláteis e a decisões, por vezes imprevisíveis, tomadas a milhares de quilómetros de distância. Um relatório recente do ICCT (International Council on Clean Transportation) traduz isto em números concretos: os veículos elétricos atualmente em circulação na União Europeia poupam ao bloco cerca de 4,5 mil milhões de euros por ano em importações de combustíveis fósseis, um valor que a subida do preço do petróleo em 2026 só veio reforçar.
O raciocínio é simples: quanto mais rápido crescer a frota elétrica portuguesa, menos exposto fica o país às oscilações de uma “commodity” que não controla. Cada carregamento feito em casa, com eletricidade produzida cá dentro e, idealmente perto do local de consumo, é energia que fica no país em vez de sair dele.
Mas o mesmo relatório traz um alerta que não devemos ignorar. A rede pública de carregamento europeia está, no global, bem dimensionada face à frota atual, mas Portugal surge entre os países da União Europeia com menor potência instalada por veículo elétrico, atrás de praticamente todos os vizinhos europeus. Estamos a vender veículos elétricos a um ritmo notável, mas a infraestrutura que sustenta esse crescimento precisa de acompanhar o passo, sob pena de a experiência de carregamento se tornar o novo obstáculo à transição, onde antes estava a autonomia da viatura.
É aqui que entra a oportunidade do carregamento privado: instalar pontos de carregamento em casas, empresas e condomínios, associá-los a soluções solares e a baterias de armazenamento, e gerir essa energia de forma inteligente, para que cada carregamento custe o menos possível e aproveite ao máximo a nossa produção de energia. Não bastam mais veículos elétricos nas estradas. É preciso garantir que há onde e como carregá-los, hoje e nos próximos anos.
A independência energética não se ganha só nas negociações internacionais de gás e petróleo. Ganha-se também, todos os dias, em cada tomada e em cada posto de carregamento instalado no país, nas ruas ou em cada casa.
Artigo originalmente publicado no Jornal de Notícias a 27 de Setembro de 2026