Em poucos dias, os portugueses assistiram a filas nos postos de abastecimento, a aumentos históricos no preço do gasóleo e da gasolina (mais de 19 cêntimos num único dia) e a um Governo a dar ajudas aos consumidores numa tentativa de amortizar o aumento expressivo dos preços. A razão? A tensão no Médio Oriente bloqueou o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa um em cada cinco litros de petróleo e gás que circula no mundo. Uma crise a milhares de quilómetros de distância e, de repente, abastecer em qualquer vila do país tornou-se um ato económico de alto risco.
Neste preciso momento, há em Portugal mais de 150 000 condutores que passaram pela bomba de gasolina, viram os preços e continuaram em frente. Porque não precisam dela.
Não é um slogan. É matemática simples. Um veículo a gasóleo a percorrer 15 000 km por ano, com um consumo médio de 6 litros por 100 km, gasta hoje perto de 1 600 a 1 900 euros anuais em combustível. Um valor que continua a subir. Um elétrico equivalente, carregado maioritariamente em casa, fica entre 400 e 600 euros de eletricidade pelo mesmo percurso. A diferença, dependendo do perfil de utilização, oscila entre os 1 000 e os 1 500 euros por ano. Dinheiro que fica no bolso da família, independentemente do que se passa no Estreito de Ormuz.
Mas há uma dimensão neste debate que vai além da poupança imediata: a da soberania energética. Portugal importa todo o petróleo que consome. Cada litro de gasolina ou gasóleo é uma transferência de riqueza para fora do país, sujeita a mercados voláteis, conflitos geopolíticos e decisões de entidades que nunca consultaram nenhum português. A eletrificação do transporte é, também, um ato de independência energética. Cada quilómetro percorrido em modo elétrico é um quilómetro que não alimenta essa dependência.
É verdade que a eletricidade também sobe. E que a transição energética tem custos de entrada que não estão ao alcance de todos, hoje. Mas a tendência é inequívoca:
os veículos elétricos são cada vez mais acessíveis, a oferta nos segmentos utilitários está finalmente a chegar ao mercado, e o custo total de posse, incluindo manutenção, combustível e fiscalidade, pende cada vez mais para o lado elétrico.
Para quem ainda hesita, estas últimas semanas têm sido uma chamada de atenção dispendiosa sobre os riscos de continuar dependente do barril de petróleo. Para quem já fez a transição, é a confirmação de que tomou a decisão certa.
O posto de abastecimento de combustível não vai desaparecer amanhã. Mas cada vez que o preço sobe, a pergunta que todos deveriam fazer é simples: até quando?